Conto Urban Jungle

Conto a várias mãos do Urban Jungle

Thursday, September 21, 2006

R.I.P

Thursday, July 20, 2006

Capitulo XXX

By DevilGirl

Percival surge das nuvens de fumo, com o seu violino na mão… o seu sorriso era acolhedor, ele sabia que o amor que Beatriz e Vicente sentiam um por o outro era tão grandioso que nem as forças do mal conseguiriam destruir.
Vicente olhou para trás e ao avistar Percival sentiu-se calmo e feliz, estava ali alguém que os iria ajudar.





- Percival! – Disse Vicente

- Sim Vicente, estou aqui, percebi que nenhum dos dois percebeu o que quis dizer, seguiram as minhas pistas com grande precisão mas não entenderam porque vos coloquei aqui.

- Ajuda-nos Percival. – Implorou Beatriz.

- É para isso que aqui estou, vocês precisam de saber tudo, para que consigam saber o que vos fez chegar aqui.
Como já devem ter percebido, aqui foi o começo de tudo, foi aqui que a nossa raça nasceu e se desenvolveu, foi aqui que os vossos amigos foram “apanhados” e é aqui que tem de ser salvos, porque aqui está toda a verdade que vocês têm de saber.

- Os nossos amigos estão aqui? – Questionou Beatriz

- Não minha querida, mas vocês têm de encontra-los antes que seja demasiado tarde.
A Aiouz não desistirá, e tem dois aliados consigo… vocês terão de ser rápidos.


Percival tirou do bolso da sua capa uma folha de papel, já bastante degradada pelo tempo.

- Aqui têm um mapa que foi desenhado pelos vossos amigos, enquanto aqui estavam presos. Esse mapa vais levar-vos a eles, eles traçaram o caminho que seguiram e a única forma que eu encontrei para os ajudar foi guardar este mapa.


Vicente olhava com atenção aquele pedaço de papel, nele estava traçado linhas, riscos e mais riscos, palavras, um autêntico enigma.


- Mas Percival, jamais chegaremos até eles com isso – Disse Beatriz

- Minha querida, usa a força e a inteligência que tens dentro de ti, ela existe, só tens de a usar.


- Beatriz vamos conseguir – Disse Vicente agarrando a mão de Beatriz





- Porque não vens connosco Percival, porque é que não largas tudo isto e vens connosco? – Perguntou Beatriz


- É tarde demais minha querida, o meu caminho está a chegar ao fim, não nasci para esta vida, vim aqui parar por amor e esse amor partiu sem mim.
Vocês já sabem o que têm a fazer! Desejo-vos boa sorte. – Disse Percival erguendo a mão num adeus e partiu.



Vicente e Beatriz sabiam que tinham um longo caminho a percorrer mas sentiam-se fortes. Percival mostrou-lhes que era preciso lutar, que havia uma esperança. Vicente sabia que tinha de ser mais forte ainda, tinha que ajudar Beatriz a lutar contra a mulher do cabelo cor de fogo!

Olharam ambos para o papel deixado por Percival. Tinha que estar ali algo que lhes mostrasse o caminho, apesar das linhas traçadas que indicavam ser o caminho percorrido pelos amigos, nenhuma dessas linhas era exacta, e eles estavam num labirinto, por onde começar?


- Beatriz, estes códigos foram escritos para nós! – Exclamou Vicente

- Como assim Vicente, nada do que aqui está se compreende.

- Pensa comigo, eles fizeram isto porque sabiam que alguém os viria buscar. Eles sabem que nós não estamos com eles e que os viríamos buscar.

- Tens toda a razão Vicente, estes códigos foram colocados aqui para que só nós os decifrássemos. Teremos que nos lembrar bem de todas as nossas conversas, de tudo que fizemos juntos.


De repente ouviu-se passos, alguém se aproximava, eram passos pesados que corriam a uma velocidade incrível.


Next

Sunday, July 09, 2006

Capítulo XXIX

jBy Safira


Beatriz estava deslumbrada com a beleza e requinte daquela figura feminina. Nunca antes se tinha sentido assim perante uma mulher. Sentia vontade de a beijar. Afastou-lhe o capuz e continuou a observá-la, agora cada vez mais perto.

A sua cara parecia-lhe familiar, embora não se conseguisse lembrar de onde a conhecia. Permaneceram em silêncio enquanto a chuva lhes encharcava os cabelos. Beatriz sorria ao ver os cabelos ruivos daquela mulher serem invadidos pela chuva. Gota a gota toda aquela imensidão de água penetrava através das várias camadas daquele cabelo cor de fogo.






Tudo aquilo lhe fazia lembrar memórias de infância. Traquinices, brincar à chuva, a alegria pateta de encontrar alguém diferente, quem sabe, um amigo. A completa ausência de noção das horas, a descoberta de uma forma subtil da sensualidade feminina. A outra mulher não sorria, mas olhava Beatriz com o mesmo interesse. Sem proferir uma palavra e sem olhar para Vicente, que se encontrava a escassos seis ou sete metros, a ruiva acariciava os cabelos de Beatriz que se deixava ir, como que embalada pelos encantos da jovem misteriosa. Sentiu uma vontade súbita de se deixar consumir, de se unir àquela que se apresentava como a mais bela criatura que os seus olhos tinham visto. Mordeu o lábio e sentiu o pulsar do seu sangue num ritmo desenfreado, sôfrego de frio e de desejo. A mulher agarrou violentamente os cabelos de Beatriz, puxando-lhe a cabeça para trás e, sem que esta pudesse dizer alguma coisa, mergulhou a língua gelada na sua boca. Aquele beijo violento, intenso, deixou Beatriz desconcertada. Não queria que ele terminasse nunca. Sentiu um orgasmo de prazer e pensou que poderia morrer naquele mesmo instante, naquele segundo, envolta de um frenesim de sensações. Sim, se morresse agora ficaria feliz.


De olhos fechados, Beatriz experimentava pela primeira vez a sensação de um beijo intenso e gelado que a consumia toda, que se apoderava de cada milímetro do seu corpo. Sentiu as unhas da mulher deslizarem pela sua garganta e desabotoarem-lhe o colarinho da blusa. A mulher encostava agora a boca ao seu ouvido e murmurava “És minha!”







O som de um violino irrompia agora, insistindo em sobrepor-se ao ruído da chuva mas, incrivelmente, nenhum dos três parecia conseguir ouvi-lo.

Vicente levantou-se de uma rajada e exclamou:


“- DESCOBRI, DESCOBRI TUDO! Este local, o filme “A Tela”, o quadro, o Percival, Alef, o princípio de tudo. Temos que partir do princípio, estamos no princípio, tudo começou aqui, na Selva Urbana”.

Vicente, excitadíssimo, disparava as suas conquistas em todas as direcções, alheio ao facto de ninguém o estar a ouvir. De facto, ainda não se tinha apercebido do silêncio gélido de Beatriz, nem mesmo da presença de uma terceira figura na sala.

“- Anda, Beatriz, vem ver, foi em Outubro de 2004 que tudo começou. A nossa pista é um painel de dia 27. O título é “Morro”, um texto de Pablo Neruda...! – Vicente começava agora a aperceber-se do silêncio da sua companheira e apressou-se a procurá-la com os olhos. Foi então que viu Aiouz, preparada para morder o pescoço de Beatriz.

– “Pára vampira!! Beatriz, acorda!!!”, gritou Vicente, aflito.

Porém, a vampira estava decidida a emendar o seu erro. Beatriz e Vicente não poderiam escapar com vida. Ela queria acabar com isto antes que Sir e Violeta chegassem, só assim voltaria a ser merecedora do respeito de ambos.

“Mortal imbecil, desejaste morrer nos meus braços?”, regozijava-se Aiouz, perante a inerte Beatriz, para terror de Vicente.

Subitamente o som do violino ecoou mais alto, abafando por completo o som da chuva, como que incitando Vicente a continuar.







“- O violino… Percival, foi graças a ele que aqui chegámos. Aiouz, pára, a Beatriz partirá comigo e nem tu nem 1000 vampiros iguais a ti me vão impedir de seguir o meu caminho. A Tela, Alef é o princípio de tudo - afirmou convicto, Vicente, enquanto segurava a capa do DVD – “Percival, toca mais alto, acorda a Beatriz!”

Aiouz rugia de raiva

.
“- IDIOTA!! Beatriz desistiu, rendeu-se a mim, desejou morrer, não viste? Mesmo que ela acorde com a música deste vampiro pinga-amor, isso não vos servirá de nada. Ela deseja unir-se a mim, desejou morrer e nem tu nem 5000 mortais podem mudar isso. Só a vontade dela interessa e ela rendeu-se aos meus encantos. Reduz-te à tua insignificância, verme!

Entretanto o som do violino aumentava cada vez mais e Beatriz acordou.


“- Beatriz, explica a essa vampira que queres viver, que queres partir comigo, casar, ter filhos… diz-lhe, meu amor, preciso que fales”, pediu Vicente, de lágrimas nos olhos.

“- Vicente, és ridículo. Enquanto lias e relias esses inúteis papéis eu estava para aqui sozinha, cheia de medo, de fome e de frio. Esta mulher que aqui vês foi a minha salvação e é com ela que eu quero estar. Deu-me carinho, atenção, cobriu-me com a sua capa e deu-se a sua saliva a beber. Desaparece Vicente, és um falhado”, retorquiu Beatriz.

“- Meu amor, não digas isso, estás enfeitiçada. Ouve o violino, lembra-te do Percival, foi ele que nos indicou o caminho, agora eu sei, consigo entender tudo”…

“- Odeio-te, mentes a cada instante!! Morres de inveja por Aiouz me ter escolhido a mim. No fundo, sempre te julgaste superior. "

“- Beatriz, não é nada disso, eu apenas procurava uma maneira de nos salvar. Aiouz escolheu-te a ti porque estavas fraca, porque desististe de lutar. Ela está a usar-te!”

Aiouz ria às gargalhadas, deliciando-se com a tristeza e desilusão espelhada nos olhos de Vicente.

“- Ai sim, Vicente, já que és tão inteligente, prova-me o que estás a dizer. Prova que Aiouz não me escolheu por me amar e sim porque eu estava frágil. Anda, mostra-me o que vales!”

“- Beatriz, dá-me um segundo, eu vou provar-to. Vais ver que tenho razão!”

Aiouz e Beatriz sorriam e concordaram em conceder 2 minutos a Vicente, para que este fizesse a derradeira tentativa de separá-las. Finda esta tentativa, teriam toda a eternidade para se amar. Enquanto isso acariciavam-se e beijavam-se, perpetuando a agonia de Vicente que revirava papéis, correndo como um louco em busca de algo que desfizesse o feitiço que unia Beatriz a Aiouz.

Rapidamente Vicente voltou com uns papéis rasgados na mão.

“- Beatriz, tudo isto está escrito há muito tempo: 27 de Outubro de 2004

«Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco.Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o
simples acto de respirar.Somente a perserverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade!”»

É isto, Beatriz, isto é Alef, o princípio de tudo, por isso estamos aqui, por isso Aiouz te escolheu a ti. Não foi a inteligência que me salvou, foi a perseverança… e o Percival. Consegues agora ouvir o seu violino?”, perguntou, emocionado, Vicente.

“- Vicente!! – Beatriz desata a chorar – perdoa-me, por favor perdoa-me, eu amo-te tanto! Estiveste sempre certo, vamos ser felizes juntos, eu quero viver!

- “Arrghhh!!!! IDIOTAS!!! – gritou Aiouz enquanto desaparecia numa nuvem de fumo.

Vicente e Beatriz abraçaram-se como se não se vissem há décadas e selaram a sua promessa de felicidade com um beijo quente e um abraço apertado que durou até ao raiar da aurora…

Thursday, June 29, 2006

Capitulo XXVIII

By Safira


De repente quebrou-se o painel. Beatriz e Vicente nem queriam acreditar. A tela onde viram o filme desfez-se como se de um castelo de fumo se tratasse.


“- Mas quem eram estas personagens?”, perguntou Beatriz, visivelmente confusa.
“- Ou, mais estranho ainda, quem passou este filme?”, acrescentou Vicente, enquanto observava a caixa de um DVD chamado “A Tela” que, ao que tudo indicava, correspondia ao filme que tinham acabado de ver.


Vicente e Beatriz vasculhavam as ruínas da Selva Urbana em busca de algo cujo nome ainda não sabiam. Procuravam pistas, qualquer coisa que os levasse à saída daquele sítio ou que os orientasse na busca dos paineleiros do Urban Jungle.





“- Beatriz, procura bem, tem que haver aqui qualquer coisa que nos indique que caminho devemos seguir- gritou Vicente enquanto tentava ler papéis antigos que se encontravam espalhados pelo chão – tem que haver algo que faça sentido”.


Beatriz começava a ficar preocupada com a saúde psicológica de Vicente. Todo o chão daquele local se encontrava coberto por imensas folhas de papel e Vicente queria lê-los a todos, pedaço por pedaço.
“- Vicente, deixa de ser estúpido, nem a nossa vida inteira seria suficiente para ler todos estes pedaços de papel. Não percebes que estão rasgados, desordenados. São ruínas, Vicente, vestígios de uma época que passou, tal como nós passaremos, se não encontrarmos uma saída”.







Mas não, Vicente continuava numa correria incessante, Murmurava palavras imperceptíveis e movia-se a uma velocidade que incomodava Beatriz.
“- Homem, descansa, vais dar em louco. Pára, não vês que os teus esforços são inúteis”
“- Beatriz, a solução para este enigma está aqui, algures, eu sinto isso. Anda, ajuda-me a procurar”
, pediu Vicente.



As nuvens que cobriam aquele local começavam a assumir um tom cinzento escuro, anunciando uma tempestade tropical.
- “Era só o que me faltava. Tudo por causa do caraças do carro que decidiu avariar. Agora estou para aqui perdida numa selva, envolta por ruínas, acompanhada por um lunático que quer ler uma quantidade de papel que dava para imprimir 200 colecções da enciclopédia luso-brasileira. Aqui à volta só vejo linhas e mais linhas de coisas escritas, álbuns de música, fotografias da Madonna e do Mark Vanderloo… arggghhh, POUPEM-ME!!! Madito carro, maldita chuva, maldito tempo, MALDITO SEJAS, VICENTE!!!”

(hihihihihi)


Beatriz estava furiosa e irritada. O sono, a fome e o cansaço retiraram-lhe todo o alento e a única coisa que ela agora precisava era de um bocadinho de atenção. Vicente continuava a sua demanda, imperturbável, consciente que a sua salvação e a de Beatriz dependeriam de algo que ele conseguisse encontrar.
A chuva caía agora em gotas grossas e os relâmpagos no céu iluminavam toda aquela área em que Beatriz e Vicente se encontravam circunscritos.




-“ Estás a ver?? Agora temos aqui um dilúvio. Nunca mais vamos sair daqui. Estás a ver todos os teus papéizinhos a flutuar? Vá, corre atrás deles. Arma a tua arca de Noé e salva-os. És um idiota Vicente! Porque é que eu te fui dar ouvidos?”, lamentava Beatriz, num momento em que o pânico se apoderava de si.


Beatriz estava exausta e o medo impedia-a de raciocinar. O cansaço e o pânico eram de tal maneira que tinha desistido de lutar. Estava magra, com umas olheiras enormes e a sua pele tinha um tom amarelado.
O som dos trovões e da chuva que teimava em cair eram os únicos ruídos que perturbavam o silêncio daquele espaço.
Beatriz cantava uma canção infantil, enquanto se embalava, tentando aquecer o corpo e afastar o medo.


Lá longe, ao fundo, vinda do meio da escuridão, começava a ver-se a silhueta de uma mulher, muito bela, vestida de preto, que envergava uma elegante capa escura. Beatriz sentiu uma espécie de alívio. Aquela mulher também devia estar sozinha, de certo que seria melhor companhia que Vicente, que continuava a tentar juntar papéis, em busca de algo que nem ele próprio sabia o que era.


Da mulher conseguiu ver os olhos. Eram de uma cor invulgar, uma espécie de âmbar translúcido. Pareciam olhos de gato.
Beatriz sentia-se agora mais confortável, ante os passos prometedores daquela mulher que se estava a aproximar em silêncio.
Por debaixo da capa preta Beatriz conseguia agora ver que a mulher envergava um lindo vestido escarlate. Era mesmo muito bonita, facto que causava a Beatriz um misto de inveja e admiração. Deveria ser uma mulher interessante, sofisticada, uma boa companhia, pensava enquanto, com um gesto, a convidava a sentar-se ao seu lado.


A figura misteriosa chegou perto de Beatriz. Desabotoou a capa e sentou-se a seu lado, cobrindo-a também a ela, para que não apanhasse chuva.

(continua a Safira com mais um capitulo)

Saturday, June 24, 2006

Capitulo XXVII


Get this video and more at MySpace.com









By Xinxa

A tela
O visível é a manifestação do invisível.







Foi quando morreste para a vida Alef... naquela noite de lua cheia e poderosa, em todo o seu esplendor, que a tua vida me escapou entre os dedos e eu renasci. Chorei naquela rua negra, onde a brisa da noite se misturava com um suave odor de rosas. Era o teu cheiro certamente. Recortado pela luz da lua, olhava o teu lindo corpo de contornos perfeitos, uma visão cerúlea de pura beleza. Ruminava em silêncio a dor de quem perde o mundo, sem nunca o ter tido. A incerteza da beleza da vida, de quem ama.



E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.



(Annabel Lee - Edgar Allan Poe - Tradução Fernando Pessoa)



Olhei em meu redor, a vida fervilhava, num silêncio incómodo, de quem tudo vê sem nada olhar.

Uma linda mulher aproximava-se. Sustive a respiração e abracei-me ao corpo inerte. Naquele reduto de morte, aproximava-se outro. És tu a morte?

Num movimento, tão rápido que me assustou, a mulher desapareceu na escuridão num umbral de porta. Nesse instante, mergulhei nas sombras. Agarrei com avidez o corpo frio, o meu porto de abrigo, numa torrente de calafrios, sofregos, perscrutei cada centímetro da calçada. Corpos cansados e bêbados deambulavam, num ritmo agonizante. Um atolhamento de corpos que se cruzavam, sem nunca se encontrarem. E ali estavamos nós. Ainda havia nós?

Ela voltou. Num ápice, de felina, saltou sobre os caminhantes. No tempo certo. Semicerrei os olhos, suplicando por vida, junto ao teu corpo sem vida.

Num gesto poderoso, com as mãos crispadas, fortes e esguias, a mulher, arremessou a mole humana, contra a parede. O silêncio voltou, ensucedor. Com um rosnar animalesco, a mulher atirou-se sobre o velho de capuz violeta e dobrou-lhe caridosamente o pescoço. Movimento elegante, cadência vertiginosa, numa dança clássica, fez com que cada osso do mendigo se dobrasse, até rasgar a carne velha, cansada. Gotículas de sangue adornavam a boca semiaberta. Sorveu, sorveu. Depois, agarrou o outro mendigo. Sugou avidamente o liquido vital de cada um dos ineptos. Cadáver era, cada um, no final.



Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

(O Corvo - Edgar Allan Poe - Tradução Fernando Pessoa)



De coração alvoraçado e despedaçado, numa mágoa contida, olhei os restos dos cadáveres. Agarrei o teu corpo com vigor. Cada centímetro da tua pele dava-me vida. Estava contigo, davas-me vida. Os teus músculos rígidos escureciam os meus olhos. Um sentimento de perda irreparável e absoluta tomou conta do meu ser. Apaixonada pela beleza dos teus cílios, chorei naquela ilusão perdida. Vejo-te mais uma vez. E a mim, ninguém me via? Senti uma alegria inexplicável. Levaste-me contigo meu amor?

Num turpor, deixei escapar o teu corpo inerte e ergui-me. Alonguei cada tendão do meu corpo, humedeci os lábios, sequei os olhos. Para onde vamos? Não vens?





Fui interrompida por um sibilar próximo. Um vulto gigantesco assomou ao cimo da calçada. Um ser belo, inquietante. Fui ao seu encontro. Deixei-te. No frio do granito, adormecido, ficaste meu amor(te). Queria atirar-me nos braços longos e alvos como a lua cheia. Queria que ele me consumisse, como uma pétala de rosa. Em estado de exaltação, vislumbrei os meus membros espalhados no chão. O meu sangue escorria na sua boca de vampiro. Voltei a viver. Volta, hoje não vens! E ele desapareceu na escuridão da noite gélida.





Deambulei o dia inteiro, às voltas, errante, e evitando a calçada daquela noite. Extenuada, continuei a calcorrear as ruas até ao horizonte. Não te vi mais. Já não estavas comigo. Morri eu meu amor. Morri, quando olhei aquela escuridão. A tua falta doía na minha alma. Anoitecia devagarinho. Estava frio, os dedos enregelavam, as pernas entorpecidas, os olhos derramavam lágrimas. Seriam por ti? Rejubilei de alegria quando senti o ser a deslizar à minha frente. Estava perto, sem distância. Não conseguia ver bem na escuridão da noite, mas reconheci o casaco comprido e ouvi com nitidez o estalar dos seus dedos, o sibilar insinuante dasua boca. Alvoraçada pela visão, corri desavorada ao seu encontro. A minha respiração ofegante ecoou na penumbra da noite. Semicerrei os olhos, a tênue luz da iluminação da rua ofuscava a sombra. Consegui antever os contornos sinuosos de mulher a aproximar-se, em reflexos vermelhos. Uniram-se os corpos, escalvados pela brisa nocturna e mortífera, numa tentação desconcertante. Depois, corri...corri...corri. Numa fuga sem tempo, num vórtice fulminante. Gritei num ronco gutural. Libertei-me, num orgasmo de vida. Todo o meu desejo pela morte desvaneceu-se. Sim, agora, eu quero viver!



Vim buscar-te, murmurou a mulher, com o seu rosto alvo colado ao meu.



Estremeci de horror e ela olhou-me no fundo dos meus olhos. Desviei o olhar. O ser gigante bebia com avidez o sangue de um corpo quente, no meio da rua. O seu rosto tinha uma máscara preta de seda. Senti a macieza de cada linha. Parei, estática e lúcida de medo. Mas era tarde. A mulher emitiu um fragor feroz e agarrou-se à minha garganta. Consegui soltar-me, em gestos relutantes, pejados de vida. Fui surripiada num rodopio de forças sobranaturais. Voei nos seus ombros fortes. Mantive-me imóvel, no aconchego dos seus braços. Ele colocou a sua mão gelada e firme sobre a minha boca. A mulher vigiava a rua. A sua voz suave e vibrante ecoou nos meus ouvidos surdos, ele disse: És minha!



Senti em cada poro o extraordinário poder que ele tinha. Caí no chão, aterrorizada, as mãos cerradas esmagando a cabeça à espera do golpe fatal. Um sentimento confuso de dor e doçura intensa misturavam-se. Os seus olhos sanguinolentos e belos, enlouqueciam-me de prazer, contornavam o meu corpo, esmagavam-me num abraço de morte. Fechei os olhos. Os seus lábios colaram-se os meus. A sua língua juntou-se à minha, num beijo gelado, como o frio das estepes. Não resisti. Abandonei-me no seu corpo.

Abri os olhos. Era ela afinal, a mulher. E a minha vida, terminava mais uma vez, naquele abraço mortal. Morri, volto para ti meu amor! Não estás sozinho na selva urbana...



Durante meio século nenhum mortal os perturbou. In pace requiescat!



Ela deixou-me viver. Senti que tinha morrido. E que naquele dia, tinha renascido. Embriagada de amor.

Acordo assustada.

Olho enternecida, o corpo moreno e forte do homem que dorme agarrado ao meu colo. Estás aqui meu amor?

Serão apenas sonhos funestos, em matizes fortes de pinceladas numa tela?

Não Alef, não somos meu amor...!



Alef - Representa um homem que estende uma mão para céu e o outro para a terra. O princípio activo de TUDO.

Monday, June 19, 2006

Capítulo XXVI


By Safira



Beatriz e Vicente caminhavam entre paredes cada vez mais apertadas e a luz que outrora irradiava ao fundo do túnel, tinha-se extinguido. O vento frio que soprava na sua direcção estava cada vez mais forte, o que os levou a pensar que estariam próximos da saída. Agora estavam envoltos por nevoeiro. Subitamente as paredes moles que os envolviam contorceram-se e expeliram-nos para o exterior.


A paisagem era escura e sombria. A vegetação densa apenas deixava antever ruínas de algo que tinha sido mas que já não era. Beatriz, com medo, procurou Vicente:


“- Não foi por aqui que entramos, que lugar é este?”


“- Andámos todo este tempo, fugimos de vampiros, combatemos os nossos medos, tudo isso para fugir daquela horrível mansão… e agora isto?” – Vicente estava desesperado. Aquele ambiente era tudo menos aquilo que esperavam. E o caminho para casa, será que existia, a partir dali um caminho para casa?


Durante algum tempo percorreram todo aquele espaço em busca de uma saída, de um caminho que os levasse a algum lugar conhecido mas não, nada. Não se via vivalma naquele local sombrio e não havia saída possível. Apenas encontravam quadros com pedaços de coisas escritas, imagens, por vezes conseguiam ouvir uma ou outra música. O local estava abandonado, parecia até ter sido palco de uma violenta batalha.


“- Este lugar é medonho, como é que alguém conseguiu viver aqui”, perguntou Vicente enquanto tentava aquecer o braços.


“-Vicente, repara nesta tela – disse Beatriz – é uma história que alguém escreveu”.


“- E então, Beatriz, o que tem isso?”


“- Olha agora para esta outra tela. Não notas nada em comum? Parece um comentário à primeira. E a música, já viste como se enquadra?”


“- Engraçado, não tinha reparado nisso. Olha aquele painel. As letras estão tão gastas, será que conseguimos descobrir o que está lá escrito?”


“- U-R-B-A-N J-U-N-G-L-E, é isso que está lá escrito, é aqui a selva urbana!” – gritou Beatriz.


Monday, June 12, 2006

Capitulo XXV

By Safira



Aiouz e Violeta estavam decididas a encontrar os fugitivos, porém, deparavam-se com um problema: o quadro, a solução para tudo estava na misteriosa e proibida ala Norte. Não, não podiam ir lá, a ira de Sir recairia sobre ambas, o melhor mesmo seria falar com ele, explicar-lhe o que se passou e esperar que a sua raiva não o iniba de ajudar a resolver toda esta trapalhada.

Aiouz desconhecia a verdadeira história de Violeta e tratava-a como uma vampira de menor importância, subvalorizando-a.
“- Violeta, vens comigo mas não abres a boca, deixa-me falar com Sir, eu consigo amansar a sua raiva”, disse Aiouz, enquanto piscava o olho a Violeta”







Aiouz entrou no quarto de Sir sem bater à porta, comportamento que lhe era característico.

“- Sir, temos um problema…”, avançou a ruiva.

“- Aiouz, diz-me coisas que eu não saiba. O que foi desta vez? Tiveste sexo com os humanos, ou foi com o Percival? Convidaste um grupo de vampiros para fazer uma tremenda orgia e eles não apareceram? Por favor, Aiouz, não me maces, estou farto dos teus problemas”, retorquiu Sir.

Aiouz olhou de soslaio para Violeta e sentiu-se humilhada. Decidiu ripostar:

“- Tudo bem, Sir, depois não digas que não te avisei. O patético do Percival ajudou os humanos a fugir. Tão bondoso e piedoso que ele é…”, ironizou Aiouz

“- O QUÊ??!!!- rugiu Sir – Nenhum humano sai desta mansão com vida. Aiouz, sua irresponsável, disseste-me que estava tudo tratado!!

Aiouz, apercebendo-se que Sir estava a ficar descontrolado, recorreu à arma que tinha, a mesma de sempre. Compôs o cabelo e avançou para Sir. Pousou-lhe a mão no ombro e segredou-lhe ao ouvido:

“- Nós vamos apanhá-los, não há nada que não consigamos fazer juntos. Eu sei porque é que estás assim – disse em tom cúmplice – hoje é noite de lua cheia, abdica desse teu voto inútil, Eva nunca voltará”.

Sir permaneceu calado, estático, como que enfeitiçado por Aiouz.




“- Repara na Violeta, na forma como ela nos observa… diz lá que não tens vontade de nos possuir às duas”, continuou a vampira.

“Não! – respondeu Sir – não abdico do meu voto e nunca faria isso a Violeta, ela nunca experimentou esses prazeres, é virgem”, disse Sir, angustiado.

Violeta permanecia no mesmo lugar, aparentemente indiferente a tudo o que se estava a passar. Ao ouvir as palavras de Sir, Aiouz sorriu e humedeceu os lábios com a língua. Sir já não era um problema. Uns minutos mais e seria um poderoso aliado.

“- Sir, senta-te, estás exausto, nós tratamos de ti”, disse enquanto, com um gesto, convidava Violeta a juntar-se a eles naquele imenso sofá preto que estava precisamente no centro do quarto. Porém, Violeta continuou de pé, imóvel, naquele mesmo sítio.

Aiouz estava a ficar irritada pela demora de Violeta mas não queria quebrar o efeito que tinha provocado em Sir, pois corria o risco de este não ser recuperável. Lançou, então, um olhar ameaçador a Violeta e repetiu-lhe em tom autoritário:

“- Menina, vem para aqui já, eu e o Sir estamos à tua espera”

“- Aiouz, não me subjugo ao teu poder. Foi por causa dos teus caprichos que os humanos conseguiram escapar. Isso que fazes é mera perda de tempo. Se demorarem partirei sozinha no seu encalço.

Estas palavras fizeram com que Sir voltasse a si. Ergueu-se, afastou Aiouz para o lado e recompôs-se.

“Vamos, Violeta, juntos resolveremos a trapalhada que esta idiota arranjou”, disse Sir, num tom carinhoso, enquanto dava o braço à morena.

“Cabra!!!” – vociferou Aiouz enquanto os via a abandonar o quarto.